Nature relaciona lacunas da ciência do clima

domingo, 24 de janeiro de 2010

Em um artigo publicado nesta quarta-feira (20), a revista levanta os pontos de incerteza sobre o aquecimento global e mostra por que é tão difícil traçar modelos climáticos que sejam à prova de erros

O vazamento de e-mails de cientistas da Universidade de East Anglia em 2009 serviu de ponto de partida para o repórter da revista Nature, Quirin Schiermeier, querer saber quais são as verdadeiras lacunas na ciência climática que tanto alimentam os céticos e desafiam pesquisadores de todo o mundo.

No mais recente relatório do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em 2007, são listadas 54 incertezas chaves que prejudicam a ciência climática.  Tais incertezas não anulariam a conclusão fundamental de que ações humanas estariam aquecendo o planeta, mas impedem a criação de projeções mais exatas sobre o futuro do clima.

“Existem lacunas no nosso conhecimento sobre o sistema climático da Terra e seus componentes e sim, isto não está totalmente claro para o público. Mas este ambiente de suspeita sob o qual estamos trabalhando é insano. Isto está sugando nossa habilidade de comunicar falhas na nossa ciência quando algumas pessoas gritam ‘fraude’ pela menor razão”, explicou Gavin Schmidt, do Instituto de Estudos Espaciais Goddard da NASA.

A Nature classificou em quatro grandes áreas as lacunas na ciência climática: Previsões climáticas regionais, previsões de precipitações, aerossóis e dados paleoclimáticos.

Previsões climáticas regionais

Segundo a Nature, a informação que seria a mais importante da ciência climática para o dia-a-dia das pessoas é justamente a menos confiável. Para planejar seu futuro, as pessoas precisam saber como a sua localidade irá sofrer com as mudanças e não o quanto a temperatura média do planeta irá subir. Entretanto, pesquisadores ainda estão tendo dificuldades para desenvolver previsões corretas para as mudanças climáticas em escalas regionais.

A ferramenta básica utilizada para simular o clima são os modelos gerais de circulação (GCMs), que representam os processos físicos na atmosfera, oceanos, camadas de gelo e na superfície terrestre. Esses modelos têm geralmente uma resolução de 1° a 3° de latitude e longitude, o que é muito amplo para uma previsão local.

A adaptação dessa ferramenta para a previsão local é um grande desafio, já que deveriam ser levados em conta fatores complexos como um maior detalhamento da topografia.

Previsões de precipitações

O aumento na temperatura nas últimas décadas deve elevar a evaporação e acelerar o ciclo hidrológico, uma mudança que deve secar áreas subtropicais e aumentar a chuva em grandes latitudes. Essa tendência já vem sendo observada e praticamente todos os modelos climáticos prevêem a continuidade desse padrão.

Infelizmente, é apenas nisso que os modelos tendem em concordar. As diferentes simulações utilizadas pelo IPCC divergem, e muito, na previsão de chuvas e nevascas no futuro. Estas simulações falham em fornecer, por exemplo, como a precipitação no inverno, importante para repor os suprimentos de água, irá se modificar em praticamente todos os continentes.

Para piorar, os modelos climáticos parecem subestimar o quanto as precipitações já se alteraram, o que prejudica demais a confiabilidade de projeções futuras.

Aerossóis

Apesar de décadas de pesquisa, cientistas ainda têm muitas dúvidas de como partículas de black carbon, sal marinho, sulfatos e poeira afetam a temperatura e as chuvas.  De uma maneira geral, se pensa que os aerossóis diminuem o calor ao bloquear os raios do sol, mas as estimativas desse efeito variam enormemente.

Ainda faltam dados para que os pesquisadores tracem um cenário completo dessas partículas. Sem falar que existem grandes dúvidas sobre de que forma esse material interage com as nuvens. Para complicar ainda mais, vários estudos produziram conclusões conflitantes se a poluição dos aerossóis está aumentando ou diminuindo.

“Nós não sabemos o que está no ar. Isto significa uma grande incerteza em processos importantes para o passado e futuro do clima”, afirma Schmidt.

Dados paleoclimáticos

Registros dos últimos 150 anos mostram um agudo aumento da temperatura nas últimas décadas, o que não pode ser explicado por alguma razão natural. É assumido que esse fenômeno se deve à ação humana. Porém, dados anteriores a 1850 não são tão confiáveis e os cientistas precisaram ir atrás de maneiras de descobrir os padrões de temperatura.

A Paleoclimatologia recorre a anéis nos troncos das árvores, recifes de coral, sedimentos em lagos, movimentos glaciais e outros recursos para ter noção da temperatura no passado. Com esse tipo de informação, foi possível descobrir, por exemplo, que houve uma pequena era do gelo em torno de 1700.

Porém o uso e a interpretação desses dados geram controvérsia e muitos questionamentos.  O próprio IPCC adota uma postura cautelosa e conclui que é “provável” que a segunda metade do século XX foi o período de 50 anos mais quente no Hemisfério Norte nos últimos 1300 anos. O Painel ainda reconhece que existe legitimidade nas dúvidas sobre as pesquisas paleoclimáticas.

Carbono Brasil