Silêncio rompido

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A bióloga americana Felisa Wolfe-Simon, autora do famigerado estudo que alegou ter descoberto bactérias capazes de incorporar arsênio ao seu DNA, voltou a falar com a imprensa. No fim de setembro, a revista Popular Science publicou um longo perfil da cientista que reconstitui em minúcias a polêmica gerada pelo trabalho. A leitura do perfil e da sua repercussão na blogosfera dá uma boa medida de para onde vai a publicação científica e a revisão por pares.

Financiada pela Nasa, Wolfe-Simon coordenou o estudo que concluiu que algumas bactérias do lago Mono, na Califórnia, eram capazes de substituir por arsênio o fósforo de suas moléculas de DNA – uma característica jamais observada em outro ser vivo. A descoberta foi anunciada com estardalhaço numa coletiva de imprensa e as “bactérias extraterrestres” viraram trending topic. O estudo da Nasa foi publicado na revista Science, tida em alto conceito pelos cientistas, mas recebeu críticas de pesquisadores e blogueiros. Wolfe-Simon recusou-se a comentar o caso na imprensa ou na blogosfera – disse que só responderia às críticas que fossem submetidas ao processo de revisão usado para avaliar os artigos científicos. Um post publicado em junho discutiu esse episódio.

O perfil publicado pela Popular Science foi escrito pelo jornalista e fotógrafo Tom Clynes, colaborador regular da revista. É um texto de fôlego (35 mil caracteres), com descrições pormenorizadas de cenas e paisagens e personagens com grande densidade psicológica – Felisa Wolfe-Simon, sobretudo. Clynes foi com ela ao lago Mono e visitou as instalações onde foram realizados os experimentos. Ele contou como surgiu a hipótese de substituição do arsênio por fósforo e deu detalhes sobre como foi o processo de revisão pela Science.

Clynes diz no texto que é difícil não ter simpatia por Wolfe-Simon. O retrato que fica é o de uma pesquisadora que foi vítima do circo de mídia montado pela Nasa para divulgar a descoberta e abandonada pela agência espacial após a polêmica. No primeiro semestre, ela foi dispensada do laboratório de Ronald Oremland, que a acolhera e estimulara a investigar sua hipótese. “Ainda acho que a ciência é a coisa mais legal do mundo”, disse ela a Clynes. “Mas é bem possível que minha carreira tenha acabado.”

O blogueiro e jornalista Carl Zimmer, um dos principais críticos da forma como o caso foi conduzido pela Nasa, elogiou a peça de Clynes, mas condenou a forma ligeira com que as críticas ao estudo foram apresentadas. Para ele, quem for traçar o perfil de um cientista não deve se guiar apenas pelos dramas de seus personagens. “Perfis de cientistas são traiçoeiros, porque a ciência transcende qualquer cientista particular”, escreveu. “Para fazer justiça à ciência, você pode ter que afastar o holofote e entrar em coisas menos humanas, como reações químicas e níveis de pH.”

O perfil também mobilizou David Dobbs, outro blogueiro e jornalista. Na primeira leitura do texto, ele teve a impressão de que Clynes compusera um retrato nuançado da bióloga. Ao constatar, nos comentários dos leitores, que muitos enxergavam Felisa Wolfe-Simon como uma rebelde injustiçada, resolveu ler uma segunda vez e mudou de ideia. Lamentou, então, que o texto não estimulasse a reflexão e o ceticismo sobre o caso. “A matéria permite que qualquer conjunto de prejulgamentos ou preconceitos sobreviva após a leitura”, escreveu.

Os dois críticos criticam nominalmente um mesmo trecho da matéria, em que Clynes defende que o artigo deveria, sim, ter sido publicado pela Science, embora admita que possa conter erros. O autor do perfil respondeu prontamente a ambos, e suas mensagens foram reproduzidas por David Dobbs e Carl Zimmer.

Clynes justificou seu ponto de vista na réplica a Dobbs. “O que espero que os leitores guardem da minha reportagem é que, a menos que haja uma grande infração ética, nenhum jovem cientista apaixonado por uma ideia merece ser crucificado por um único fracasso profissional.” E concluiu citando um especialista que ele ouviu no perfil: “Se um artigo é problemático, ele deve ser descartado, mas o cientista, não.”

Os argumentos são legítimos de parte a parte. Clynes poderia, de fato, ter sido menos condescendente com sua perfilada e preencher uma lacuna do perfil – ele não discute o que pode e o que está sendo feito para se confirmar ou refutar a existência das bactérias que metabolizam arsênio. Mas é um texto bem fundamentado e, sobretudo, agradável de se ler. O perfil de Felisa Wolfe-Simon, as críticas feitas a ele e suas réplicas são material rico para refletir sobre a comunicação da ciência hoje.

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Revista Piauí