Atlas do Espaço Rural Brasileiro retrata a realidade do campo no Brasil

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Atlas do Espaço Rural Brasileiro, lançado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta- feira (19), revela que a agricultura familiar abrange 84,4% dos estabelecimentos agropecuários do País (4,4 milhões), mas cobre apenas 24,3% da área (80 milhões de hectares).

A área média dos estabelecimentos com agricultura familiar é de 18,3 hectares, enquanto a dos com agricultura não familiar era de 330 hectares. O Nordeste tinha cerca de 50% do total de estabelecimentos com agricultura familiar, além da maior área, cerca de 35% do total do País.

O atlas integra dados do Censo Agropecuário 2006 e das pesquisas populacionais, sociais, econômicas e ambientais do Instituto, oferecendo uma dimensão espacial, com o objetivo de retratar a complexa realidade territorial do campo brasileiro. A publicação completa pode ser acessada na página.

A pesquisa mostra que, embora as máquinas e insumos agrícolas marcaram a modernização da agricultura, a atual fase do processo está baseada no consumo intensivo de capital intelectual, que congrega uma série de conhecimentos, bancos de dados e técnicas, como irrigação, sementes certificadas e transgênicas, assistência técnica, plantio direto, transferência de embriões, confinamento e inseminação e rações industriais.

Educação

Por outro lado, dos proprietários rurais que administravam diretamente 3,9 milhões de estabelecimentos agropecuários (75,9% do total estabelecimentos), 39% eram analfabetos ou sabiam ler e escrever sem terem frequentado a escola e 43% não tinham completado o ensino fundamental.

As mulheres, que respondiam por cerca de 13% dos estabelecimentos agropecuários, tinham a maior taxa de analfabetismo (45,7%), contra 38,1% dos homens. As maiores taxas de analfabetismo, tanto para os proprietários quanto para os ocupantes, se concentravam nos municípios das regiões Norte e Nordeste do País.

A concentração dos maiores percentuais de produtores proprietários com nível médio de instrução (regular e profissionalizante) ocorre nas áreas de maior dinamismo da produção agrícola, com destaque no Centro-Sul, especialmente na região de domínio do complexo agroindustrial da soja e de outras commodities de exportação, demonstrando a correlação entre o aprimoramento técnico da agricultura e o nível de instrução do produtor rural.

Ambiente

Segundo o atlas, a agropecuária é uma das atividades humanas que causam maior impacto sobre o ambiente natural, alterando o equilíbrio ecológico e diminuindo a biodiversidade nos biomas. Dos seis biomas encontrados em território nacional, o que mais sofre pressão dessa atividade é o Pampa, que tem 71% da sua área ocupada com estabelecimentos agropecuários.

Em seguida estão os biomas Pantanal, Mata Atlântica e Cerrado, que têm, respectivamente, 69%, 66% e 59% de suas áreas ocupadas com estabelecimentos agropecuários. Segundo o Censo Agropecuário 2006, apenas cerca de 20% dos estabelecimentos agropecuários no País tinham matas destinadas a Áreas de Preservação Permanente ou Reserva Legal.

No Brasil, cerca de 40% dos estabelecimentos agropecuários não usam práticas para prevenir e controlar a erosão ou manutenção da fertilidade do solo. O Centro-Oeste e o Norte apresentam os percentuais mais altos de estabelecimentos que não fazem uso de práticas agrícolas, com 64% e 50%, respectivamente. A região Sul é a que apresenta maior percentual, aproximadamente 70%. A prática agrícola capaz de prevenir erosão mais utilizada era o plantio em nível, feita em cerca de 30% dos estabelecimentos. As queimadas eram usadas em 14% dos estabelecimentos do País, com maiores percentuais no Norte (26%) e Nordeste (22%).

Segundo o Censo Agropecuário 2006, cerca de 30% dos estabelecimentos agropecuários não tinham acesso a energia elétrica. Entre os que tinham acesso, apenas 2% produziam a própria energia, principalmente a partir do aproveitamento de energia solar e da queima de combustíveis.

Água doce

O Brasil concentra 53% da água doce da América do Sul (334.000 metros cúbicos por segundo) e 12% do mundo (1.488.000 m³/s). Cerca de 80% dos recursos hídricos disponíveis em território nacional estão distribuídos entre as bacias hidrográficas de menor densidade demográfica, enquanto as regiões mais densamente urbanizadas detêm somente 12% dos recursos hídricos, abrigando 54% da população de total do País.

Aproximadamente 90% dos recursos hídricos são destinados à produção agrícola, produção industrial e consumo humano, sendo a maior demanda de água as atividades de agricultura irrigada. Dos 54,2 milhões de estabelecimentos ocupados por lavouras permanentes e temporárias, 4,5 milhões são irrigados (8,3%), o que evidencia uma considerável margem, em potencial, de expansão de áreas de agricultura irrigada, que poderia alcançar 30 milhões de hectares.

Deslocamento

O IBGE mapeou, também, o deslocamento espacial da fronteira agropecuária brasileira, saindo do Sul em direção às regiões Centro-Oeste e Norte do País. As ações políticas estatais e privadas, especialmente as de incentivo à pesquisa científica, relacionadas à adaptação de espécies vegetais ao Cerrado brasileiro, facilitaram o deslocamento dos investimentos no setor.

Mais recentemente, a fronteira agrícola brasileira avançou em direção aos cerrados do oeste baiano, sul/sudeste do Maranhão e Piauí, acompanhada por investimentos na infraestrutura e na logística portuária. Porém, observam-se enormes extensões territoriais onde praticamente inexistem cadeias produtivas organizadas, em especial no Norte e Nordeste.

Na Amazônia, seguindo um padrão histórico de economia de exportação, há extensas áreas supridoras de matérias-primas para os grandes portos exportadores, enquanto as cidades ou núcleos permaneceram concentrando escassos serviços essenciais à população local.

Transporte de cargas

Embora o Brasil conte com mais de 29 mil km de rios naturalmente navegáveis, apenas 5% da safra de grãos é transportada pelas hidrovias, enquanto 67% seguem por estradas. Ao longo das décadas de 1990 e 2000, o modal rodoviário respondeu por cerca de 70% do total transportado no País, contrastando com outros países, como os Estados Unidos (26%) e China (8%). Em relação aos portos, dois problemas são cruciais: o primeiro é o acesso aos terminais, o qual depende em investimentos na rede e o segundo é o custo das operações.

Milho

A produção nacional de milho evoluiu 137,7%, passando de 21,4 milhões de toneladas, em 1990, para 50,8 milhões de toneladas, em 2009, em razão de ganhos de produtividade da cultura do que propriamente a acréscimos da área plantada. No Centro-Oeste, o crescimento foi de 402,7%, em razão da disponibilidade de terra, e da utilização de insumos modernos conjugados à mecanização em todo o ciclo da lavoura.

Algodão

Entre 1990 e 2009, a participação da região Centro-Oeste na produção de algodão cresceu de 10,7% para 61,7%, em razão do desenvolvimento de sementes especialmente adaptadas ao solo do cerrado. Nesse período, o deslocamento dessa cultura das regiões Sul e Sudeste para o Centro-oeste também foi favorecido pelo baixo valor da terra, e também pela topografia plana, que favorece a mecanização de todo o ciclo da cultura.

Café

A produção nacional de café declinou de 2,9 milhões de toneladas, em 1990, para 2,4 milhões em 2009, em decorrência da expressiva retração da área plantada ocorrida justamente nas principais áreas de produção (Sul e Sudeste), mas também no Centro-Oeste.

Fumo

O incremento de 61,2% da área plantada da cultura do fumo na década de 1990 contribuiu para a expansão da produção nacional, que evoluiu de 445,5 mil toneladas em 1990, para 863,1 mil toneladas em 2009. A exploração do faz parte do cenário agrícola de pelo menos 814 dos seus 1.188 municípios. A produção regional evoluiu de 397,3 mil toneladas em 1990, para 843,2 mil toneladas em 2009.

Arroz

A produção nacional de arroz evoluiu de 7,4 milhões de toneladas, em 1990, para 12,7 milhões de toneladas, em 2009, devido, sobretudo à região Sul (responsável por 2/3 da produção nacional), onde além da tradição regional no cultivo da lavoura, houve melhorias de caráter tecnológico na produção e ainda ao avanço da área plantada.

Feijão

A produção nacional de feijão cresceu 56%, passando de 2,2 milhões de toneladas em 1990 para 3,5 milhões de toneladas em 2009, em razão de ganhos de produtividade da cultura, já que houve expressiva contração da área plantada. Na região Sul, a produção de feijão teve uma expansão de 55,8% graças, sobretudo, aos ganhos de produtividade e à estabilidade da área plantada da cultura no estado do Paraná, cuja produção evoluiu de 279,0 mil toneladas em 1990 para 787,2 mil toneladas em 2009.

Mandioca

A produção nacional de mandioca ficou praticamente estagnada ente 1999 e 2009, passando de 24,3 milhões de toneladas para 24,4 milhões de toneladas. Contribuiu para isso declínio de um terço de na produção no Nordeste (acompanhado de perda de 27,6% na área plantada), onde somente Rio Grande do Norte e Alagoas registraram expansões da produção (66,4% e 46,7%).

IBGE