EUA podem cortar US$ 50 bilhões da ciência

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Barack Obama foi o candidato preferido dos cientistas na última eleição presidencial dos EUA e quase não ouviu críticas vindas da comunidade de pesquisa durante a campanha.

Antes mesmo de iniciar seu segundo mandato, porém, o presidente e seu partido já sofrem pressão do meio acadêmico para evitar uma catástrofe iminente: um corte de US$ 50 bilhões no orçamento federal dedicado à ciência.

Esta redução, uma queda de 17,2%, é aquilo que os recursos de pesquisa de fins não-militares devem sofrer nos próximos cinco anos caso os cortes de verbas necessários para equilibrar as contas do governo poupem a pesquisa e o desenvolvimento na área de defesa.

Atingindo o país que detém um quinto da produção científica do mundo, valor do corte equivaleria a cerca de cinco vezes o do acelerador de partículas gigante LHC.

Essa estimativa de redução saiu de uma análise da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência), que calculou quanto o orçamento federal de ciência deve perder se o contigenciamento -os cortes draconianos de verba previstos para iniciarem 2013- atinjam com mais força a área militar.

Se os cortes forem equilibrados, ainda assim a fatia abocanhada pelo contigenciamento seria de US$ 22 bilhões (veja gráfico nesta pág.). O melhor cenário -um no qual o orçamento de pesquisa militar e civil seria compensado por cortes em outras áreas- seria o de manter os níveis de gastos equivalentes aos de 2012.

Isso significaria desistir da curva de crescimento no investimento em ciência que se desenhou na virada do milênio. Os gastos retrocederiam ao nível de 2002, quando foram investidos US$ 60 bilhões.

Como esse teto já foi fixado pela Lei de Controle do Orçamento no ano passado, sobra pouca margem de manobra para melhora a não ser a gangorra dos gastos militares e civis.

“Ainda resta algum interesse de certos grupos, sobretudo na Câmara dos Representantes [controlada pelo Partido Republicano], em proteger o lado da defesa na equação e mover parte ou todos os cortes para o lado não-defesa”, afirma Matt Hourihan, autor do relatório da AAAS sobre a situação de financiamento à ciência. Essa situação pode mudar até 2017, porém, periodo de vigência do contingenciamento. “Quaisquer decisões futuras vão depender de quem controla a Casa Branca, o Congresso, as comissões de orçamento e como suas prioridades vão evoluir.”

O Partido Democrata, de Obama, cuja candidatura recebeu o apoio de 68 cientistas vencedores do prêmio Nobel, deve sofrer imensa pressão agora para usar todas as suas cartas na tentativa de evitar o pior no corte de verbas para pesquisas não militares.

“Os cortes de orçamento draconianos embutidos no abismo fiscal fazem dano generalizado à pesquisa e ao desenvolvimento, bem como à proteção e à regulação ambiental” diz Angela Anderson, uma das diretoras da UCS (União dos Cientistas Preocupados). A entidade está engajada agora em fazer pressão para evitar que, além da ciência, a política de energia dos EUA sofra com os cortes.

Os números dos cortes no primeiro ano do período de contingenciamento devem ser negociados no Congresso dos EUA até o fim do ano.

CAPACIDADE OCIOSA

Com uma redução da verba americana para pesquisa, seria natural que cientistas em países em desenvolvimento passassem a se preocupar também. Muitas das oportunidades de trabalho para grupos sem verba surgem de programas de colaboração em grandes projetos internacionais. Há dinheiro americano em quase todos os megaprojetos de ciência.

No Brasil, porém, o secretário de políticas e programas de pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia, Carlos Nobre, diz não estar preocupado.

“Já estamos distantes do ponto em que a colaboração com os EUA fazia diferença importante no conhecimento cientifico brasileiro”, disse o cientista. Para ele, uma queda grande no investimento americano em pesquisa, se ocorrer, pode ter até o efeito contrário, porque a comunidade acadêmica passaria a ter uma “capacidade ociosa”, e buscaria ajuda fora para preenchê-la. “Como o Brasil tem tido recursos para participar de colaborações com seus meios próprios, menos recursos na mão de pesquisadores norte-americanos significaria mais oportunidades de colaboração.”

Fonte: Folha de S. Paulo