Chile: especialistas medem pegadas de carbono da produção leiteira

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Produzir um quilo de carne a pasto na Região de Los Lagos gera cerca de 50 vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que produzir um litro de leite, segundo demonstrou um estudo inédito do Instituto de Pesquisa Agropecuária (Inia) Remehue, que mediu pela primeira vez as pegadas de carbono produzidas no setor agropecuário local. As pegadas de carbono medem a totalidade produzida de gases de efeito estufa, direta ou indiretamente, e o impacto ambiental é determinado através de um inventário de emissões, seguindo os parâmetros reconhecidos mundialmente.

Assim, de acordo com o relatório preliminar do Inia Remehue, um bovino produz em média 30 quilos de CO2 – composto de gases como metano, óxido nitroso e dióxido de carbono – para produzir um quilo de carne, enquanto que para gerar um litro de leite são produzidos 0,6 quilos de CO2. “O valor por si mesmo não é tão importante, mas se busca determinar onde estão os pontos críticos para aumentar a eficiência da produção em nível de propriedades e, assim, diminuir a contaminação”, disse a pesquisadora encarregada de medir as pegadas de carbono da região, Marta Alfaro.
No estudo, estabelece-se que na produção pecuária, tanto de leite como de carne, existem dois componentes de importância que incidem na geração das emissões: o gado ruminante que emite metano e, por outro lado, o uso de fertilizantes nitrogenados. Dentre os gases que contribuem com o aquecimento global, o gás metano é um dos mais nocivos, pois é 21 vezes mais ativo que o dióxido de carbono em seu efeito estufa.

A razão pela qual a produção de carne emite mais gases de efeito estufa que a de leite se deve ao fato de que, nessa região, os sistemas de produção leiteira são mais intensivos, fazendo com que se controle melhor a dieta da vaca e se otimize, por sua vez, a produção. Ao contrário, a produção de carne é mais extensiva, o que faz com que a geração por hectare seja mais baixa. Outro ponto de diferença é a dieta do gado de corte, que pode ser muito fibrosa ou insuficiente nos episódios críticos (inverno ou seca), temporadas em que o animal não cobre seu requerimento, o que se traduz em uma baixa imediata na produção e maior emissão de gases, já que a contaminação em unidades de CO2 é calculada com base no quilo de produção por animal.

A média de geração de quilos de CO2 por cada quilo de carne é de 30, no entanto, entre os estabelecimentos se observa uma ampla diferença de geração de gases. O estudo do Inia, por exemplo, estabelece que, enquanto há estabelecimentos que produzem 19 quilos de CO2 por quilo de carne, outros geram 98 quilos de CO2. Nesse cenário, o passo seguinte das pesquisas é determinar a razão pela qual algumas propriedades emitem mais gases de efeito estufa que outras. “Dessa forma, será necessário determinar quais serão os estabelecimentos onde teria que se fazer uma intervenção mais drástica para poder melhorar a eficiência e também reduzir as emissões”. Nesse sentido, acredita-se que os estabelecimentos que apresentam uma menor ineficiência seriam os que têm um pasto mais fibroso, porque faz com que o animal elimine mais gases. “É necessário conseguir melhoras na alimentação e na eficiência, ou seja, produzir de tal forma que o animal transforme mais alimentos em produtos (leite e/ou carne)”, explicou o diretor regional do Inia Remehue, Francisco Salazar.

A agricultura e a pecuária aportam 28% dos gases de efeito estufa a nível mundial. Como a atividade dos animais ruminantes é o maior contribuinte do setor, os estudos e pesquisas se centram em baixar esses níveis. Um trabalho que ganhará maior importância, já que as projeções apontam que as emissões aumentarão. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), até 2050, haverá um adicional de 50% de massa pecuária. Estima-se, também, que até 2020, haverá 20% a mais de emissões de gases de efeito estufa, um cenário que obrigará a tomar medidas mais rigorosas para baixar a contaminação, onde a pecuária será um foco a ser abordado.

Nessa linha, os estudos buscam estabelecer medidas de mitigação que equilibrem a emissão dos gases nas atividades que mais apresentam o problema. O importante, disse o diretor regional do Inia em Los Lagos, é determinar como se compõem os valores dos contaminantes, onde estão sendo produzidas mais emissões e o impacto do sistema de transportes que se usa para coletar a produção. “É aí que estamos fazendo os esforços para aplicar medidas de mitigação e, assim, baixar as pegadas de carbono”, disse Salazar.

Ele disse que somente 10% do nitrogênio gerado pelo animal é absorvido e convertido em energia; os demais são reutilizados nos pastos ou eliminados de forma gasosa para a atmosfera, enquanto outra parte escorre aos lençóis freáticos. “O bom é que os pastos atuam como um bom retentor de nitrogênio, de forma que estão dadas as condições para que se faça uma agricultura mais eficiente e sustentável”.

A reportagem é do www.camposureno.cl, traduzida e adaptada pela Equipe MilkPoint.