Colaborações científicas e internacionalização

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A queda da Universidade de São Paulo na última avaliação no ranking Times Higher Education (THE), foi amplamente noticiada nos últimos dias. A USP estava na posição 158 em 2012, caiu para o bloco das classificadas entre as 226ae 250a posições. Como era a única representante brasileira no bloco de elite, o país agora está fora do grupo das 200 melhores universidades do mundo, segundo o THE. Avaliando em perspectiva, não haveria sentido em pensar que a USP piorou efetivamente durante o intervalo entre as duas avaliações. No entanto, como em qualquer sistema de classificação, as posições são relativas e, ainda que não tenha havido mudanças consideráveis na USP, a queda no ranking sinaliza que outras instituição melhoraram seu desempenho. Afinal, é preciso correr para, pelo menos, permanecer no mesmo lugar. Os critérios de avaliação utilizados também influenciam a análise, tanto que na edição de 2013 do QS World University Ranking, a USP ocupa a 127a colocação, e melhorou sutilmente em relação à avaliação anterior deste ranking, quando ocupava a posição 139.

De qualquer forma, não contar com uma universidade figurando no grupo das melhores do mundo, seja qual for a métrica utilizada, é claramente incompatível com o papel exercido pelo Brasil na economia mundial. O mau resultado na prestigiosa lista do THE aponta para a necessidade de uma reflexão sobre as universidades de pesquisa e a academia no Brasil. Entre os principais pontos levantados pelos especialistas que se pronunciaram a respeito da má colocação das universidades brasileiras, estão o isolamento em relação a universidades e centros de pesquisa do exterior, a falta de cultura com base na meritocracia e o excesso de burocracia. Além dos fatores culturais, a internacionalização de excelência tem o potencial de contribuir para resolver o problema do baixo impacto da produção científica brasileira, que possui peso decisivo na avaliação da maioria dos rankings.

Diferentes estudos apontam para o fato de que artigos resultantes de colaborações envolvendo mais de um país apresentam maior impacto, e, por conseguinte, maior qualidade, que publicações domésticas (que envolvem apenas autores do próprio país). Em estudo publicado na revista Nature com o título Collaborations: The fourth age ofresearch, Jonathan Adams traça um perfil do papel das colaborações internacionais na produção científica de alguns países. Tendo passado pelas eras individual, institucional e nacional, a quarta geração da pesquisa seria movida pela colaboração internacional entre grupos de elite. Como resultado geral, o autor identificou que o percentual da produção doméstica vem caindo ao longo de pouco mais de três décadas (entre 1981 e 2012) em países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Holanda e Suíça. Ao contrário, a participação da contribuição doméstica em países como Brasil, China, Índia e Coreia do Sul, encontra-se aparentemente estacionada em torno de cerca de 75% da produção total, no mesmo período.

Talvez até mais revelador que o aumento percentual das colaborações internacionais em países de economia estabelecida e a diminuição em países com menor tradição em pesquisa, seja o efeito dessas colaborações no impacto das publicações.Nesse sentido, o autor observou que artigos resultantes de colaborações internacionais são geralmente mais citados. Particularmente para o Reino Unido e os Estados Unidos, um aumento de cerca de 20% nas citações recebidas foi contatado em artigos envolvendo coautorias internacionais.

Entre as colaborações internacionais, as envolvendo instituições de elite são, obviamente, as de maior sucesso.Parcerias envolvendo por exemplo as Universidades de Harvard, Cambridge, Toronto e Tóquio,institutos da Sociedade Max Planck, entre outros, são as mais eficazes.Entre as possíveis explicações para a relação observada entre o impacto da produção científica e o nível de internacionalização, o autor opta por uma simples e, em minha opinião, bem plausível: artigos envolvendo times internacionais são mais citados porque é mais provável que autores internacionais façam a melhor ciência. Simples assim.

Como sinalizado pela última edição do ranking THE, as universidades brasileiras precisam pensar seriamente em internacionalizar as suas atividades de ensino e pesquisa. Particularmente no caso da pesquisa, colaborações internacionais devem privilegiaro intercâmbio com instituições de elite. Infelizmente, no entanto, o que parece prosperar em algumas áreas no Brasil são as colaborações locais. Algumas dessas, com ares de jabuticaba, seriam melhor descritas como consórcios ou associações para inflar currículos e em muito pouco contribuem para o aumento do impacto da ciência feita por aqui.

Que as reflexões suscitadas pelo mau desempenho das universidades brasileiras em rankings internacionais sirvam para gerar um debate em torno da tão necessária internacionalização das nossas instituições. No particular que diz respeito à pesquisa avançada, a ciência brasileira em muito se beneficiaria com o aumento das colaborações internacionais de excelência. Afinal, do comprovado impacto que emerge da interação entre instituições de elite em diferentes países resta claro que o todo é maior que a soma das partes.

* Hamilton Varela é professor associado do Instituto de Química de São Carlos da USP