Inovação no século XXI

terça-feira, 22 de julho de 2014

Há poucas semanas, a Vale, junto com outras 10 empresas globais, participou de um fórum sobre o futuro do sistema em que o conhecimento científico e tecnológico é transformado em inovação. Essa reunião, organizada pelo Massachusetts Instituteof Technology (MIT), tinha como objetivo garantir que o fluxo da inovação não fosse interrompido por conta de uma frágil articulação entre as partes.

O conceito clássico de inovação pressupõe que são as empresas nascentes (start-ups) as responsáveis pelas inovações. Essas inovações entram nas grandes empresas e ganham escala mundial de duas formas principais. Em um desses caminhos, a empresa nascente cresce, ganha mercado e torna-se uma grande empresa. Vários exemplos desse caminho surgiram no século XX, sobretudo, nas áreas de computação (tanto hardware como software). No segundo caso, mais frequente, a empresa nascente é comprada por uma grande empresa que, então, absorve a tecnologia e, assim, mantém ou amplia seu mercado.

Mas inovar não é tão trivial. Primeiro, é preciso ter um cliente, um consumidor disposto a pagar pela inovação. Antes disso, é preciso ter uma ideia e desenvolvê-la a ponto de torná-la um produto ou serviço com qualidade e custo adequados. Por fim, todas as inovações se forem interessantes serão sempre imitadas, mas podem sucumbir caso não sejam continuamente renovadas. A adoção das inovações pelas empresas de grande porte, desta forma, alimenta o fluxo, mantendo a integridade da cadeia de inovação e produção, barateando custos e ampliando o acesso do consumidor.

No painel organizado pelo MIT, estavam representantes de uma das maiores farmacêuticas do mundo, da maior produtora de software, da maior empresa no setor eletrônico e da Vale. O que fazia esse público tão díspar em uma reunião como essa? E o que fazia uma mineradora no meio dessas empresas tão intensivas em tecnologia? Entendermos a lógica de um mundo globalizado é a melhor explicação para essas perguntas..

Em um mundo cada vez menos unipolar, mais e mais os atores globais têm que agir globalmente. Em um mundo cada vez mais diversificado, mais e mais temos que entender nossos fornecedores (de tecnologia, por exemplo) e nossos clientes. Na reunião no MIT, buscou-se definir denominadores comuns para a inovação nas grandes empresas. Como aproximar a academia e as empresas nascentes das grandes empresas e, assim, obter desenvolvimento e inovação fundamentais para nossa existência enquanto espécie neste planeta? Saúde, telefones, carros, minérios, água e comida, bem como segurança, são produzidos em escala mundial e de amplo acesso graças a complexos sistemas de inovação e produção nos quais academia e indústria interagem.

Também foi alvo de discussão a contribuição fundamental de organizações industriais (Bell Laboratories, Sarnoff Laboratories, etc.), que, por razões diversas, deixaram de existir ou tiveram muito atenuadas suas funções. A contribuição desses grandes centros de pesquisa industrial era um elemento fundamental na cadeia de inovação. Instituições como essas nunca existiram no Brasil. Seus principais similares nacionais mais equivalem aos grandes centros de P&D que diversas grandes empresas têm ao redor do mundo.

Em nosso país e no mundo, a conversa entre academia e indústria ainda é difícil, com preconceitos de ambas as partes. Para a academia, a indústria é míope, imediatista e nem sempre quer resolver o problema na raiz. Para a indústria, a academia não tem compromisso com prazos e não se interessa pelas questões práticas. Assim, as diferentes dinâmicas e objetivos dessas organizações geram um descompasso e muitas vezes ressentimentos. Por outro lado, quando funciona adequadamente gera riqueza para a sociedade. Em alguns lugares onde esse sistema floresceu (Vale do Silício, Boston, Triangle Park) gerou riqueza, empregos, prosperidade. Ao redor do mundo as tentativas frustradas de imitar esse modelo são múltiplas.

Estudando os modelos (de interação academia/empresa) que fracassaram e os modelos de sucesso, em 2009, a Vale criou o Instituto Tecnológico Vale (ITV). Sua missão: criar opções de futuro por meio de pesquisa científica e desenvolvimento de tecnologias de forma a expandir o conhecimento e a fronteira dos negócios da empresa de maneira sustentável.

Por outro lado, as atividades que colocam a mineradora como um dos líderes globais em seu setor obrigam-na a ser eficiente em suas minas, portos e ferrovias. As inovações que geram esse resultado nascem tanto dos empregados, dos centros de P&D, como das parcerias com universidades e empresas de todo o mundo. Como deixou claro o painel do MIT, esse fluxo vital entre conhecimento e riqueza é frágil, precisa ser nutrido e ter suas partes adequadamente integradas. A priorização de setores competitivos da economia, como é o da mineração, deveria ser a principal alavanca para a inovação do país. O governo não deveria alavancar suas bases de inovação exclusivamente em setores de alta tecnologia. A inovação precisa das grandes empresas e, sobretudo, daquelas que são líderes globais.

Murilo Ferreira é diretor-presidente da Vale. Graduado em administração de empresas pela FGV/SP tem mais de 30 anos de experiência em mineração.

Fonte: Valor Econômico