A corrida para desenvolver pesticidas orgânicos

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

No caminho para uma conferência em Orlando, na Flórida, Brian Vande Berg parava seu carro a cada dez minutos para caminhar pelas praias e pântanos e de vez em quando coletava um pouco de lama em sacos plásticos. Seu alvo: organismos microscópicos que habitam o solo e que as empresas agrícolas consideram a nova fronteira para proteger as lavouras.

Fabricantes de sementes e pesticidas como Basf SE, DuPont Co., Bayer AG e Monsanto Co. estão investindo pesadamente para desenvolver novos produtos que incorporam organismos como bactérias e fungos, que executivos dizem ajudar o milho, a soja e outras culturas a se defender de pragas e se desenvolver mais rapidamente.

Vande Berg, diretor de pesquisa e desenvolvimento da divisão CropScience da Bayer, participa de uma corrida que tem levado pesquisadores a cantos distantes dos Estados Unidos, vasculhando leitos secos de rios e pilhas de material orgânico em busca de pequenos microrganismos. As empresas pretendem revestir o exterior das sementes com esses micróbios benéficos e, em outros casos, pulverizá-los sobre as plantas em desenvolvimento.

A aposta nos microrganismos reflete um esforço de diversificação das empresas agrícolas para além dos pesticidas sintéticos químicos em um cenário de crescente regulação e maior preocupação dos consumidores. Pesticidas e outros produtos que incorporam micróbios normalmente podem ser lançados mais rápido que inseticidas e herbicidas químicos criados pelo homem, que têm atraído maior vigilância dos reguladores nos últimos anos devido a preocupações ambientais levantadas por consumidores, grupos de defesa e agricultores de produtos orgânicos.

“Há muitas coisas que [os produtos baseados em micróbios] podem fazer que hoje são feitas por químicos sintéticos”, diz Paul Schinckler, presidente da Pioneer, unidade de sementes da DuPont.

Microrganismos têm tido uso limitado na agricultura por décadas, principalmente no revestimento de soja e outros legumes para melhor absorção de nutrientes e combate aos fungos. Agora, as empresas afirmam que avanços na tecnologia de análise genética e práticas de cultivo permitem que elas encontrem e desenvolvam novos microrganismos capazes de desempenhar funções mais amplas, como proteger culturas contra mais doenças e pragas ou reduzir danos causados pela seca.

“O diagnóstico do DNA hoje dá um nível de entendimento que não tínhamos há cinco ou dez anos”, diz Robert Fraley, diretor de tecnologia da Monsanto.

Por cerca de 20 anos, a Monsanto e suas rivais venderam sementes geneticamente modificadas para culturas como milho e algodão. Nelas são inseridos traços de outros organismos que permitem que as sementes produzam proteínas que matam insetos e resistam à aplicação de químicos que as empresas também comercializam.

A incorporação de organismos microscópicos como bactérias e fungos é uma abordagem diferente. Ela encoraja bactérias e fungos úteis a viver na superfície das plantas, ajudando-as a absorver nutrientes e fornecendo defesas contra insetos e doenças.

Os produtos feitos a partir de micróbios enfrentam o ceticismo de alguns ambientalistas. Mas como eles não dependem da engenharia genética ou de químicos produzidos em laboratório, os produtos podem ser usados na produção orgânica e em alimentos naturais. As leis do Departamento de Agricultura dos EUA impedem que os produtos orgânicos contenham organismos geneticamente modificados, ou transgênicos, mas permitem o uso de bactérias existentes na natureza em safras orgânicas.

O apetite dos consumidores por opções mais saudáveis e ambientalmente conscientes torna os produtos orgânicos uma estrela no setor de alimentos, criando negócios como a planejada aquisição pela General Mills Inc. da fornecedora de alimentos naturais e orgânicos Annie’s Inc. Um pequeno mas crescente número de produtores de alimentos também começa a eliminar os transgênicos de alguns produtos.

Pesticidas biológicos hoje registram vendas anuais de cerca de US$ 2 bilhões, ou 4% dos US$ 54 bilhões em produtos químicos vendidos globalmente, segundo estimativas do setor. Mas a crescente aversão pública aos produtos químicos, como o glifosato, vendido sob a marca Roundup pela Monsanto, pode impulsionar as vendas dos pesticidas biológicos para US$ 5 bilhões até o fim da década, prevê Michael Cox, analista da Piper Jaffray.

Os fabricantes de pesticidas têm entrado nesse mercado por meio de uma série de aquisições.

A alemã Basf, maior empresa química do mundo em vendas, pagou em 2012 US$ 1 bilhão pela Becker Underwood, uma empresa americana especializada em pesticidas biológicos. A Bayer pagou US$ 500 milhões no mesmo ano por uma empresa similar chamada AgraQuest Inc.

A DuPont está construindo sua plataforma de micróbios com tecnologia adquirida no negócio de US$ 6,5 bilhões pela produtora de ingredientes Danisco A/S em 2011. A DuPont informou em agosto que está construindo duas novas unidades de pesquisa nos EUA para ajudar a desenvolver esses produtos. A Monsanto, maior produtora de sementes em vendas, também anunciou que planeja quase triplicar sua pesquisa com micróbios em 2015.

Analistas dizem que não está claro se as empresas farão avanços científicos com micróbios como ocorreu com sementes transgênicas e pesticidas químicos. E alguns grupos ambientalistas alertam que o uso em massa de microrganismos na agricultura pode gerar seus próprios problemas, como estimular que as pragas se tornem resistentes mais rapidamente aos ataques de bactérias, criando ervas daninhas e insetos ainda mais resistentes.

Margaret Reeves, cientista sênior da Rede de Ação de Pesticidas, diz que o problema pode acabar intensificando ainda mais o uso de pesticidas. “A abordagem ainda não tem sustentabilidade no longo prazo.”

Fonte:  Valor Econômico