Internacionalização não acontece a custo zero, mas é um investimento que traz retornos às universidades

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A internacionalização e governança de universidades foi o tema de debate do 57º Fórum Nacional de Reitores da Associação Brasileira de Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (ABRUEM). O encontro aconteceu em São Paulo, na UNESP, e contou com a participação de dirigentes de universidades de todas as regiões do País, além dos vice-reitores das universidades de Coimbra e do Porto, em Portugal, para compartilhar suas experiências e mostrar possibilidades para as instituições brasileiras se articularem melhor com as redes de pesquisa e ensino internacionais.

Joaquim Carvalho, de Coimbra, falou sobre a internacionalização abrangente, que implica a integração da dimensão internacional em todas as perspectivas da atividade universitária, inclusive com planos nacionais e regionais. “Não deve ser uma estratégia em si, mas uma dimensão de todas as outras estratégias de desenvolvimento das Instituições de Ensino Superior”, apontou.

Para o docente Unicamp, Leandro Tessler, não existe universidade moderna hoje que não olhe para fora. “É fundamental que reitores e pró-reitores entendam e coloquem em prática a implementação da internacionalização”, disse ao enumerar os aspectos que envolvem esse processo. Segundo ele, internacionalizar vai muito além de adotar a língua inglesa, ou enviar estudantes e professores ao estrangeiro. Envolve, especialmente, criar parcerias, proporcionar estrutura para receber pesquisadores e estudantes de outras nacionalidades, é, por fim, inserir a instituição em uma dimensão intercultural, tanto na pesquisa, quanto no ensino.

José Celso Freire Junior, professor e assessor-chefe de Relações Externas da UNESP, acrescentou a necessidade de ampliar os interlocutores para fortalecer essas articulações e, também, melhorar a qualidade do serviço oferecido. “Para expandir o universo acadêmico, é preciso buscar outros modelos de gestão”, comentou. Freire Júnior argumentou ainda que a internacionalização é um investimento. “Ela não acontece a custo zero, mas pode gerar muitos recursos para as instituições”, disse.

Entre os investimentos, ele destacou a importância da melhoria nos procedimentos burocráticos e nas estruturas de recebimento do pesquisador estrangeiro, bem como a criação de um ambiente multicultural. “É necessário compreender outras culturas, outros valores, outros costumes quando se recebe pessoas”. Outro ponto destacado foi o investimento nos funcionários. “Mais de 90% do quadro de pessoal das universidades são funcionários. É fundamental compreender a importância do papel dessas pessoas no suporte e desenvolvimento desses projetos”, observou.

O papel dos reitores

Para o vice-presidente da ABRUEM, Aldo Nelson Bona, reitor da Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná (UNICENTRO), o papel do reitor é induzir o desenvolvimento da internacionalização. “O gestor tem que ser um criador de oportunidades, e assumir a tarefa de fazer acontecer. Buscar a criação de oportunidades e facilitar o processo”, disse.

Bona também ressaltou a importância da decisão política de investimentos e do alinhamento entre as instituições. “É necessário que cada universidade se disponibilize a fazer esse investimento. E é ao reitor que cabe a decisão política e as alianças de aproximação”.

Outro ponto levantado pelo reitor foi a diversidade nos interesses de cooperação, focando não apenas em seguir modelos de países superdesenvolvidos, mas, também, de se colocar como um parceiro de instituições que ainda não gozam de tanto prestígio no cenário mundial. “Somos muito viciados a olhar a cooperação internacional mirando naqueles que são considerados superiores e desprezamos os vizinhos que estão em desenvolvimento. Estar à disposição de países menos desenvolvidos pode ser também muito interessante”.

O conhecimento da língua estrangeira como obstáculo para a internacionalização foi pontuado pelo reitor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Antonio Guedes Rangel Junior. Segundo ele, a falta de estudantes e pesquisadores, até mesmo professores e funcionários, capacitados para comunicar-se na língua inglesa, cria duas barreiras, uma para as opções de fazer pesquisa fora, outra para o acolhimento do estrangeiro. “Por um lado, temos uma carência de políticas que assegurem uma permanência de qualidade do pesquisador que vem de fora; por outro, observamos uma busca muito concentrada, por parte dos brasileiros, por instituições em países de língua latina, como Espanha e Portugal”.

Ainda sobre a questão dos funcionários, Rangel também defendeu a necessidade de empregar recursos em pessoal de apoio, capacitando-os a fazer o trabalho de recepção do estudante que vem de fora. “Ainda estamos muito distantes de instituir uma cultura de internacionalização na Universidade”, criticou.

Potencialidades sociais

Mais que a língua inglesa, a presidente da ABRUEM, Adélia Maria Carvalho de Melo Pinheiro, destacou que é fundamental, para despertar o interesse para tais parcerias, as singularidades culturais locais, que possam servir de modelo para estudos em outras sociedades. “Precisamos buscar as potencialidades sociais, que constituem a identidade da instituição e despertem o interesse de alianças e parcerias internacionais”, observou Pinheiro, que é também reitora da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), na Bahia.

De acordo com ela, um ponto crucial que permeia toda essa discussão é a capacidade de as universidades e seus gestores preservarem a autonomia de suas instituições. “A autonomia é um valor universitário que tem sua aplicação em momentos de articulação e parcerias. É a autonomia que permite à universidade fazer a crítica e a reflexão daquilo que a mantém. Que a permite encontrar com um parceiro, um financiador em potencial, mas poder dizer não se a proposição não está alinhada com a missão e os princípios da instituição”, concluiu.

A presidente contou também que as discussões desse encontro culminaram com a finalização de uma carta, na qual a ABRUEM marca as posições políticas que são importantes no contexto atual de uma crise econômica nacional. “Reconhecemos a existência da crise, mas enfatizamos nesse documento que a educação superior deve ser preservada, sob pena de prejudicarmos nossa sociedade, nossos jovens, não somente no presente, mas no futuro”, alertou. A carta será enviada ainda esta semana a todas as entidades estaduais e municipais, bem como sociedades e autoridades que representam as instituições de ensino superior.

Educação a distância

O evento também trouxe para debate a educação a distância, contando com o lançamento do livro “Práticas de EaD: interfaces entre ensino, pesquisa e extensão”. O livro faz um resgate histórico dos trabalhos que vêm sendo desenvolvidos nas instituições estaduais e municipais brasileiras e traz a contribuição de 141 autores de 26 universidades membros da ABRUEM.

Composto por 51 artigos, que tratam de políticas de institucionalização e práticas pedagógicas e desenvolvimento de tecnologias de gestão e participação, o livro tem como objetivo promover uma maior integração entre essas instituições e valorizar a modalidade como possibilidade de expansão do ensino superior no País. Na sessão de apresentação de livro, foi destacado o rápido crescimento da EaD no Brasil que, de 1,2% do total de alunos matriculados na graduação em 2009, passou a 15% dessa parcela – e desses, apenas 2% estão nas instituições públicas.

Na apresentação de sexta-feira, foi destacada a flexibilização da educação, com a busca de possibilidades de se constituir um programa híbrido, com a convergência entre ensino presencial e virtual. Para tanto, conforme comentou a coordenadora geral do Núcleo de Tecnologias para Educação da Universidade Estadual do Maranhão, Ilka Márcia de Souza Serra, é preciso que o governo invista mais na EaD estadual e municipal. “Hoje temos cerca de 43% dos professores de ensino básico e médio em vias de se aposentar. É preciso incentivar a formação de mais professores para superar o déficit que isto está para criar na educação do País. E a EaD pode contribuir nesse processo”, disse.

Fonte:Daniela Klebis /Jornal da Ciência