“Come together”

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Em meio a promessas de se exercitar e manter um escritório arrumado ou um espaço na bancada do laboratório, os cientistas que desejam seguir com seus trabalhos em 2016 devem fazer uma resolução simples para o novo ano: ampliar seus horizontes.

Pensar além do formato convencional dos artigos científicos, e experimentar novas maneiras de apresentar dados e resultados. Transpor as fronteiras históricas entre disciplinas acadêmicas, e enxergar o cenário emergente da interdisciplinaridade. E, talvez mais importante, abraçar a tendência crescente de colaboração internacional.

Os benefícios da parceria internacional são claros. Pesquisas transfronteiriças recebem mais atenção que o trabalho insular, e suas publicações atraem mais citações. As promessas para uma ciência global é óbvia, também: pesquisas com financiamento público buscam cada vez mais impacto e retorno, e muitos dos problemas mais imediatos que a ciência pode ajudar a resolver não estão confinados nas fronteiras nacionais.

As questões de sustentabilidade, saúde, acesso a alimentos e água, ecossistemas estáveis ​​– os chamados “grandes desafios” – são produtos de cadeias e relações complexas, causas naturais e dos efeitos da ação do homem, por regiões que são diversas, mas conectadas. As soluções, e a ciência que irá em busca delas, deve brotar de uma rede semelhante: diversa, porém conectada.

O suplemento Nature Index 2015 Collaborations, publicado em novembro, demonstra a tendência para a colaboração. Cerca de 70 % dos artigos acadêmicos da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que foram analisados, por exemplo, contaram com coautores de países diferentes.

Ele também demonstra o deslocamento das bases desses projetos internacionais, que já não precisam mais estar ancoradas nas grandes lideranças habituais da Europa – o Japão e os Estados Unidos.

Cientistas na Espanha e Portugal estão estabelecendo alianças produtivas com colegas da América do Sul. Pesquisadores australianos estão cada vez mais buscando juntar-se aos cientistas da região da Ásia-Pacífico.

Isso reflete a nova e mais ampla geopolítica do século XXI – uma mudança que é perfeitamente ilustrada pelo acordo de mudanças climáticas, assinado em Paris em dezembro de 2015. Países como a China, a Índia e o Brasil – definidos em negociações climáticas prévias com países pobres em desenvolvimento – vêm assumindo uma parcela mais igualitária da responsabilidade na luta contra o aquecimento global, mais de acordo o novo status emergente dessas nações.

Deixados de fora

Nem todos os cientistas estão se beneficiando desta era de cooperação. E, como os especialistas bibliometria Jonathan Adams e Tamar Loach escrevem no suplemento Nature Index, o custo de ficar de fora pode ser grave (ver J. Adams e T. Loach Nature 527, S58 – S59; 2015). “Se a colaboração está relacionada com alto impacto, então os grupos de pesquisa que não fazem parte de redes de colaboração correm o risco de ficar para trás, marginalizados pela falta de acesso à vanguarda das pesquisas em seu campo.”

Onde esses cientistas excluídos vivem e trabalham não surpreende ninguém. A África continua a ser sub-representada neste novo mundo, mais ainda se a parte relativamente forte desempenhada pela África do Sul, em comparação com o resto do continente, é levada em conta. No entanto, os desafios não são muito maiores do que aqueles enfrentados na colcha de retalhos de sistemas políticos, sociais e econômicos que compõem o continente africano. E, como o surto do vírus Ebola tem demonstrado, os problemas da África, tanto quanto provocam impactos locais imediatos e devastadores, também desafiam o resto do mundo.

Como pode a pesquisa e a crescente força da colaboração internacional chegar a mais países em desenvolvimento? Como podemos garantir que os produtos da pesquisa científica alcancem a parte da humanidade que mais se beneficiaria?

Não é por acaso que a chegada da China no cenário mundial, e como um parceiro desejado, venha na rabeira de investimentos domésticos maciços em pesquisa. Muitas nações da África (e em outros lugares conhecidos como o Sul Global) não podem ou não querem fazer grandes investimentos em ciência, e as forças do mercado acadêmico – gostem ou não – continuarão a conduzir o Norte Global a outros lugares em busca de sinergias.

Em vez disso, o investimento científico dos países ricos em países e regiões pobres tem sido ligado, há tempos, à agenda do desenvolvimento. Como tal, ele não é, e com razão, avaliado apenas em termos de produtividade científica – artigos e citações. Mas as alianças de parceiros desiguais podem ser notoriamente incômodas, e isso se demonstrou com pesquisas financiadas desta forma. O paternalismo pós-colonial deu lugar à assistência científica, mas essa mudança não desafiou a dinâmica doador-beneficiário e os problemas de polarização que se configuram em projetos e relacionamentos. Neste modelo, aqueles do norte assumem as contas com demasiada frequência e decidem a agenda de pesquisa e como o sucesso será definido; os do sul são esperados, via de regra, que se ajustem, que forneçam os dados e que sejam gratos pela oportunidade.

Muitos dos atores – desde os financiadores do governo e órgãos filantrópicos a instituições e líderes individuais de projetos – vêm tomando medidas admiráveis ​​para chamar a atenção para este tipo de desigualdade e para enfrentá-lo. Esses esforços merecem elogios e apoio.

A solução de longo prazo para a desigualdade de oportunidades é a igualdade de investimentos. Por enquanto, os pesquisadores envolvidos com tais colaborações assimétricas devem garantir que eles não irão tirar vantagens. Conforme o horizonte se expande, os códigos profissionais e éticos que recompensam a entrada com crédito apropriado e regem o uso justo e equitativo dos dados e materiais devem também se expandir.

Deve haver, também, maior consciência de que, assim como há mais para a pesquisa dos que os artigos, há mais a ser providenciado em uma parceria que os recursos convencionais, como dinheiro e equipamentos. O suplemento Nature Index divulgou um projeto internacional que realizou uma análise genética de humanos, chimpanzés e os seus piolhos. O texto destacou o depoimento de um autor de Uganda no artigo, que teria dito que o trabalho seria impossível sem o apoio dos parceiros de pesquisa nos Estados Unidos e na Europa, porque o grupo de Uganda não teria a tecnologia necessária. Isso é verdade. Mas, pelo outro lado, os parceiros não têm os chimpanzés necessários para o estudo.

Tradução livre: Daniela Klebis – Jornal da Ciência