BIÓLOGOS ADEREM À PUBLICAÇÃO DE RESULTADOS SEM REVISÃO

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Na manhã do último dia 15, o neurocientista carioca Stevens Rehen divulgou nas redes sociais o link para o mais recente artigo preparado por seu grupo de pesquisa. O trabalho apresenta uma nova forma de cultivar os chamados “minicérebros” – aglomerados de células nervosas obtidas em laboratório que permitem estudar várias propriedades do cérebro humano. Os resultados “serão úteis nos estudos sobre transtornos mentais em modelos celulares tridimensionais”, escreveu Rehen no Facebook.

Podia ser apenas o anúncio rotineiro de um novo trabalho, não fosse um exemplo de adesão a um modelo de publicação que vem ganhando cada vez mais adeptos entre os biólogos. O artigo de Rehen foi divulgado on-line antes mesmo de ser avaliado por outros especialistas – a chamada “revisão por pares” é um procedimento essencial para a validação do conhecimento científico e é adotada por periódicos pelo menos desde o século XVIII.

A publicação dos “preprints” (nome que os pesquisadores dão aos artigos antes da revisão técnica), corriqueira entre os praticantes da física e de outras ciências exatas, ainda era vista com reticência por pesquisadores das ciências da vida. O arXiv, repositório que reúne preprints das ciências exatas, existe desde 1991 e foi incorporado à rotina de pesquisa dos cientistas da área (o blog escreveu sobre a plataforma por ocasião de seu vigésimo aniversário).

Rehen contou numa entrevista que se interessou pelo novo modelo quando, em fevereiro, os estudiosos da zika foram estimulados a compartilhar seus dados e antecipar seus resultados num comunicado conjuntode dezenas de periódicos científicos, instituições de pesquisa e órgãos de financiamento. “Praticamente ninguém da área biológica tinha considerado essa opção até então”, disse Rehen. “Nem eu nem muitos colegas sabíamos o que era um preprint.”

Com sua equipe da UFRJ e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, Rehen investigava como os minicérebros criados em seu laboratório respondiam ao serem infectados pelo vírus da zika quando decidiu que divulgaria o trabalho assim que estivesse pronto. No mesmo dia em que submeteu o artigo à revistaScience, Rehen publicou-o na plataforma da revistaPeerJ.

Alguns colegas reagiram com desconfiança, conjecturando que a divulgação do artigo provavelmente afetaria sua chance de aceitação. Mas não foi o que sucedeu: avaliado por três pareceristas, o trabalho foi aceito para publicação pouco mais de um mês após ser submetido, e contribuiu para estabelecer o vínculo causal entre zika e microcefalia – questão ainda em aberto naquele momento.

Rehen se surpreendeu com as 12 mil visualizações do artigo antes de ser publicado pela Science. Disse ainda que o escrutínio da comunidade contribuiu para aprimorar detalhes que não haviam despertado a atenção dos revisores. “Recebi o excelente feedback de uma pesquisadora que sugeriu alterações numa figura”, contou. A experiência motivou o cientista a tornar a publicação de preprints uma norma em seu laboratório. O artigo do dia 15 é o quinto do grupo divulgado dessa forma.

Biólogos demoraram a surfar na onda dos preprints, mas vêm buscando compensar o atraso. Um marco importante foi a criação, em 2015, do ASAPbio, um movimento que promove a discussão dos preprints tanto na internet como em encontros de cientistas, editores e financiadores. O grupo fez um vídeo que explica seu funcionamento (apenas em inglês):

NatureScience e outras revistas científicas do primeiro time têm uma política favorável aos preprints. Os periódicos editados pela Sociedade Americana de Genética vão além e oferecem aos autores a possibilidade de publicar simultaneamente numa plataforma de preprints os artigos submetidos. Mas parte do meio editorial ainda reluta em acolher a ideia – é o caso do grupo que publica a revista Cell, que decide caso a caso se aceita artigos já divulgados.

“Acreditamos que os preprints de biologia ainda estão no estágio de ‘coleta de informação’”, escreveu Emilie Marcus, diretora executiva do grupo. Num post no início do mês, a editora elencou pontos que, na sua avaliação, ainda precisam ser discutidos, como questões de primazia das descobertas publicadas sem revisão por pares e a forma de lidar com fraude e má conduta nesse ambiente.

A adesão dos biólogos aos preprints soa modesta se comparada à dos cientistas de exatas. O arXiv reúne 1,1 milhão de artigos publicados em 25 anos. ObioRxiv, seu principal equivalente para as ciências da vida, só foi criado em 2013 e, até meados de junho, oferecia pouco mais de 4 500 artigos. Lançado no mesmo ano, o PeerJ Preprints – plataforma escolhida por Stevens Rehen – tem pouco mais de 2 100 trabalhos publicados.

Perguntei ao neurocientista se ele tinha alguma hipótese para explicar a adesão tardia dos biólogos ao modelo. “Talvez haja algum tipo de troca intelectual sem expectativa de reconhecimento autoral maior em física”, cogitou Rehen. “Nossa área é extremamente competitiva, talvez haja maior necessidade de protagonismo.” Um possível reflexo disso é a estrutura mais rígida dos grupos de pesquisa, como lembrou o físico Bruno Mota. “A cultura acadêmica na biologia me parece muito mais hierárquica”, escreveu. “Creio que essa atitude se estende para editores e revisores, e para um processo editorial mais estruturado.”

Professor do Instituto de Física da UFRJ, Mota é também colaborador de um grupo de neurociência e já falou ao blog sobre as diferenças de cultura entre as duas disciplinas. Num e-mail, ele disse que razões históricas poderiam explicar a adesão precoce de seus colegas aos preprints. Notou que já na era do papel os físicos teóricos costumavam distribuir e discutir seus artigos antes que estivessem disponíveis, e lembrou seu pioneirismo na informática. “Os físicos adotaram a internet antes dos biólogos (inventamos a web!)”, escreveu Mota. “Simulações e cálculos numéricos só agora estão se tornando ubíquos na biologia, mas têm papel importante na física desde que os computadores foram inventados.”

Revista Piauí – Questões da Ciência