“Se queremos divulgar ciência, temos que estar nas novas mídias”, afirma cientista youtuber

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Os novos canais de conteúdo científico na internet têm chamado cada vez mais atenção pela sua linguagem acessível, recheada de referências à cultura pop, mas sem perder o lado didático da ciência. Um exemplo de como essas novas mídias tem contribuído para a divulgação científica é o canal no Youtube chamado Nerdologia, no ar desde 2010, com mais de 1,4 milhão de inscritos e quase 84 milhões de visualizações.

À frente do canal está o biólogo com pós-doutorado em microbiologia pela Universidade Yale, Atila Iamarino. De forma leve e descontraída, o cientista youtuber fala sobre temas complexos do mundo acadêmico e científico, mas com enfoque em assuntos de interesse da grande parte dos internautas, como games, filmes, séries e quadrinhos, até esportes, cultura, saúde e política.

“O interesse das pessoas por ciência na internet é basicamente o seguinte: quanto maior a acurácia científica, quanto mais ciência bruta, menos as pessoas se interessam. Se queremos divulgar a ciência, temos que estar nas novas mídias e falar das coisas que as pessoas estão consumindo, do que gostam, para que vejam o que estamos oferecendo”, afirmou.

No início, Atila não tinha ideia da abrangência que seu canal poderia ter. Agora, seus vídeos são usados pelo Google Brasil e Youtube Brasil para divulgar informações sobre o vírus zika. Hospitais também já os utilizaram para informar sobre assuntos como vacinação e outras enfermidades. Até mesmo nas salas de aula eles estão presentes, mostrados por professores para introduzir temas científicos aos estudantes.

“Um ponto que descobri no Nerdologia para a divulgação científica é que a ciência vale muito mais como um caminho para explicação, e não como prioridade. A ciência é um processo para explicar as coisas, mas o que engaja de verdade as pessoas nos temas é o contexto onde está inserida. Isso é o mais importante”, explicou o youtuber.

Um dos vídeos mais acessados do canal foi sobre o lutador de MMA Anderson Silva, quando ele fraturou a perna em 2013. Atila explicou cientificamente sobre o incidente, os ossos que compõe a perna, suas funções, quanto peso aguentam, além de dar informações sobre o esporte. “A comunidade do MMA adorou e espalhou o vídeo, que viralizou. Esse é outro ponto de mídias sociais: a gente não sabe de antemão o tamanho do público que atinge. Pensa que vai em um determinado público, mas também pode atingir outro e quando vê, já está disseminado em toda parte.”

Mídias e públicos

Segundo o cientista, cada mídia utilizada para divulgação  tem um público específico e uma resposta diferente. Para ter um blog, por exemplo, é preciso apenas de um computador, mas o público atingido será reduzido. No Facebook, as publicações tendem a sumir na medida em que a linha do tempo é atualizada. “Cada mídia tem um apelo diferente, que pode ou não ser o que se busca para fazer a divulgação científica. Depende muito do impacto que se quer gerar. O Twitter, por exemplo, é o meio mais acessado por cientistas, mas é usado para trocar bibliografias e contatos profissionais, apesar da existência do LinkedIn. Seu potencial ainda não foi totalmente explorado”, explicou.

Já para ser um youtuber, Atila assegura que a demanda é bem maior, justamente por dar acesso a um público mais amplo. O canal exige vídeos semanais, habilidades de edição, filmagem, som, tempo e muita dedicação pessoal. Além disso, precisa de um investidor que acredite no projeto inicial e injete recursos em um primeiro momento, até que o canal comece a dar resultado.

“As visualizações do Youtube não pagam o bastante, então tem que ter uma empresa acreditando no canal, para quando vier o patrocínio recuperar o dinheiro. Precisa também de alguém para dispor de tempo e colocar o conteúdo semanalmente, em uma taxa que as vezes é insana. Em uma semana que não postamos o Nerdologia, levamos dois meses para recuperar a audiência. É uma peteca que não pode deixar cair”, disse Atila.

Para facilitar a disseminação do conteúdo científico aos que não poderiam fazer um canal no Youtube, Iamarino sugere como alternativa mais simples o uso da Wikipedia. Quando a turma em que lecionava precisou elaborar um trabalho final para desmentir boatos sobre o vírus zika em sala de aula, seus alunos pesquisaram e escreveram um artigo completo sobre a doença e publicaram na página do Wikipedia.

“O artigo do zika teve 2 milhões de acessos esse ano. Não há nada que eu poderia fazer em sala de aula que teria um impacto tão grande. Um simples ato de pegar um trabalho, publicá-lo na Wikipedia já chegou em muita gente, muito mais que vários esforços institucionais poderiam fazer. Então, pensar em como facilitar o uso do seu trabalho já pode ser o suficiente sem precisar criar um canal, fazer um vídeo por semana e outras coisas”, informou.

Dificuldades

Atila aponta que as instituições públicas enfrentam um problema sistêmico de disseminação da informação, em vários setores. Por isso, ainda não estão preparadas para reconhecer esses tipos de mídia como uma forma relevante, onde as pessoas acessam e consomem informação diariamente. “Elas não estão colocando o conteúdo lá onde as pessoas estão, e quando colocam, é algo que não chega a elas. Para o bem ou para o mal, se a gente quiser fazer diferença, é preciso utilizar estas ferramentas”, ponderou.

No Brasil, iniciativas para popularizar a ciência se mostram urgentes. Tendo como base um levantamento do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Atila informou que 87% dos brasileiros não lembram o nome de uma instituição de pesquisa nacional, e 94% dos entrevistados não sabiam o nome de um pesquisador brasileiro. Dos 6% que responderam, o oitavo cientista mais citado por eles foi Albert Einstein – físico alemão, reconhecido mundialmente pela Teoria da Relatividade. “O caso é grave”, resumiu.

Na visão do youtuber, é necessário correlacionar assuntos científicos com o cotidiano das pessoas para despertar interesse pela ciência. “Essa é uma transição que tenho visto no Nerdologia. No começo era sobre games, cultura pop, e hoje os vídeos mais vistos são sobre astronomia e buraco negro. Temas como esses acabam sendo mais interessantes a longo prazo do que a demanda imediata. E se o público já está confortável com o canal, ele está disposto a ouvir outros assuntos.”

Temas que aparentemente são de difícil compreensão, como relatividade geral e ganho de massa com a energia, por exemplo, ganharam uma nova roupagem trazida por Atila. “Se eu mandasse um vídeo apenas sobre esses assuntos, poucas pessoas iriam ver. Mas se eu disser que consigo responder quem tem o soco mais forte, Superman ou Hulk, e no meio disso explicar sobre os assuntos, muito mais gente se interessaria”, observou.

O cientista, blogueiro e youtuber se apresentou na palestra “Divulgação científica: como fazer? Porque fazer? Como ficar rico e famoso nesse processo?”, realizada na Universidade de Brasília (UnB). Para acessar o canal Nerdologia, acesse este link.

(Leandro Cipriano, da Agência Gestão CT&I)