“Nossa função é estimular os pesquisadores a serem ambiciosos desde o momento zero”, diz João Moreira Salles

quinta-feira, 23 de março de 2017

Primeiro instituto privado de apoio à ciência no Brasil, o Serrapilheira foi lançado ontem, no Rio de Janeiro. A iniciativa é do casal João e Branca Moreira Salles, que doaram R$350 milhões para apoiar projetos com grande potencial de impacto internacional

Com uma doação em caráter irrevogável de R$ 350 milhões, o documentarista João Moreira Salles e sua esposa Branca Vianna Moreira Salles lançaram nesta quarta-feira, 22, no Rio de Janeiro, o Instituto Serrapilheira, o primeiro instituto privado de apoio à ciência no Brasil. A receita bruta resultante da aplicação do montante doado, cerca de R$ 16 a 18 milhões ao ano, garantirá a estabilidade a longo prazo para apoiar projetos arrojados, que tenham potencial de produzir, no futuro, os chamados “breakthroughs” científicos.

“Apoiaremos poucos projetos, mas os melhores. Buscamos os melhores pesquisadores do País, com capacidade de criar ideias novas, de fazer a boa pergunta e mostrar que eles têm uma ideia que vai se destacar no resto do mundo”, diz o geneticista francês Hugo Aguilaniu, escolhido entre 138 candidatos, do Brasil e do exterior, para assumir o cargo de diretor-presidente do Instituto.

O Serrapilheira foi idealizado a partir de modelos de fundações dos Estados Unidos, onde existe uma cultura muito forte de apoio financeiro por parte da iniciativa privada à pesquisa científica, especialmente a Sloan Foundation, a New York Stem Cell FoundationRockefeller Brothers Funde a Simons Foundation, instituição na qual o projeto Serrapilheira se espelhou.

“A ideia é concentrar as nossas ações no apoio às Ciências da Vida, às Ciências Físicas, às Engenharias e à Matemática”, conta João Moreira Salles. Ele também contou que a propriedade intelectual das produções científicas resultantes da iniciativa não pertencerão ao Instituto. “O Serrapilheira doa recursos. Não tem propriedade de nada”, afirmou, acrescentando que nem ele nem sua esposa, interferirão nas decisões da instituição.

Na coletiva de imprensa que marcou o lançamento do Instituto, os diretores ressaltaram que o Serrapilheira terá um compromisso com a liberdade do cientista e o respeito ao tempo de fazer ciência. “A gente não vai pedir retorno imediato. Não vamos esperar que nos primeiros dois anos os pesquisadores publiquem artigos ou criem patentes. Não queremos quantidade, queremos impacto”, ressaltou Aguilaniu.

Uma das novidades do Instituto é permitir que os pesquisadores tenham total flexibilidade no uso dos recursos doados.  Moreira Salles diz que o diferencial da iniciativa é justamente poder alimentar as ideias mais ambiciosas dos cientistas, aquelas que normalmente não seriam aprovadas pelas fundações tradicionais.

“O pesquisador tem a preocupação, especialmente no início de seus estudos, de manter o fluxo de recursos constante. Se ele atacar um problema central, é provável que não consiga resolvê-lo no primeiro, no segundo ano, e, talvez, nunca. E daí, ele não publica, e, consequentemente, não consegue mais recursos. Com isso, a tendência natural do pesquisador, no início, é atacar os problemas laterais, que ele tem certeza que consegue resolver. Ele aumenta incrementalmente o conhecimento, mas não muda o campo. Ou seja, ele aprende, desde o início, a ser menos ambicioso, e isso vai ter um impacto. Boa parte da ciência feita aqui no Brasil é apenas incremental. Nossa função é estimular os pesquisadores a serem ambiciosos desde o momento zero”, disse, em entrevista ao Jornal da Ciência.

Para o presidente do Conselho Científico do Instituto, Edgar Dutra Zanotto, professor titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o Brasil, por meio das agências de fomento à pesquisa, conseguiu chegar à 13º no ranking dos países que mais publicam artigos, mas o impacto dessas publicações permanece pífio. “Crescemos em números, temos uma massa crítica, ótimos grupos de pesquisa, ótimos institutos de pesquisa. Temos muita pesquisa de avanço incremental. Mas precisamos de grupos de pesquisadores com potencial de criar impacto”, afirmou.

A expectativa é que o instituto lance o primeiro edital de chamada já no início do próximo semestre e os resultados devem ser publicados no final do ano. As doações devem começar a ser feitas no começo de 2018. A seleção não estabelecerá um sistema de cotas, porém, conforme conta Branca Moreira Salles, o Instituto estará atento às proporções da diversidade racial, de gênero e da distribuição geográfica dos participantes.

“Antes de definir uma política de gênero e raça, vamos fazer pesquisas qualitativas para tentar definir onde estão os gargalos para poder fazer as intervenções corretas. Os dados quantitativos existem, o que falta é entender, com dados concretos, o por quê. Mas entendemos que esse é um problema gravíssimo no Brasil e que queremos entender onde e como podemos agir”, contou Branca.

Outro ponto destacado foi a necessidade de alimentar uma cultura científica. Para isso, o Instituto tem planos de, futuramente, investir 20% de seus recursos em projetos de divulgação científica.

Exemplo

João Moreira Salles destacou ainda a colaboração da SBPC com a iniciativa, e contou que teve diversas reuniões com a presidente Helena Nader, para discutir ideias para o projeto.

O vice-presidente da SBPC, Ildeu Moreira Castro, representou a Sociedade no lançamento desta quarta-feira, e reiterou o apoio da entidade à iniciativa. “É extremamente importante para a ciência brasileira e para a cultura científica no Brasil, ainda mais em um momento em que o País passa por muitas dificuldades. É um alento muito grande ver que pessoas do setor empresarial têm a visão de apostar no Brasil e criar uma instituição com esse perfil de apoio à ciência. É uma iniciativa que conta com o apoio da SBPC em tudo o que for possível, inclusive para estimular outras empresas a apostar também no País, nos jovens, na pesquisa, na ciência e tecnologia brasileira, que tem um potencial enorme”, afirmou Castro.

O evento contou ainda com a presença do matemático Artur Avila, único brasileiro a ganhar a Medalha Fields, o Nobel da Matemática. Segundo ele, a iniciativa é um projeto muito bem pensado, que aborda vários problemas e apresenta algumas ideias de solução para melhorar a ciência no Brasil. Ele destaca também a importância simbólica do projeto.  “Você vê que a ciência é algo a ser valorizado. Esse impacto social vai muito além do impacto direto sobre as pesquisas. É importante que todo o processo seja excelente e que consiga ajudar a produção de certos resultados num nível grande, e que seja também motivador. Ter um resultado de grande impacto é o que pode contribuir para entrar na imaginação, uma coisa que as pessoas podem ver que no Brasil realmente se faz ciência de qualidade”, disse.

O ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências, Jacob Palis, também ressaltou que tal iniciativa colabora para aumentar a importância da Ciência no País: “É uma iniciativa muito positiva. O conselho científico e todo o comitê estão excelentes. Os Moreira Salles nos estimulam muito para que não apenas esse instituto, mas a ciência brasileira tome rumo e passe a ser uma coisa importante para o Brasil”.

Daniela Klebis – Jornal da Ciência