Reforma moderada

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vem da Finlândia uma novidade que promete facilitar a vida de pesquisadores, revisores e editores de revistas científicas. O recém-criado Peerage of Science (algo como Confraria da Ciência) é uma plataforma para o envio de artigos que oferece uma alternativa interessante à revisão por pares, como é chamado o modelo tradicional de avaliação dos trabalhos científicos.

Criado por três pesquisadores da Universidade de Jyväskylä e da Universidade do Leste da Finlândia, o Peerage of Science propõe um modelo de avaliação dos artigos que diminui o tempo e os custos envolvidos no processo. A lentidão e os custos do processo são objetos de críticas ao sistema de revisão por pares, amplamente adotado pelas revistas científicas (as críticas já foram tema de posts no blog em julhodezembro de 2011).

Uma novidade do modelo finlandês consiste na criação de um banco comum de revisores que pode servir a vários periódicos. Um artigo enviado ao Peerage of Science é analisado uma única vez, por pelo menos dois cientistas, e aquela avaliação pode ser levada em conta por todas as revistas que integram a plataforma. Essa medida poupa tempo a todas as partes envolvidas no processo de publicação: no sistema convencional, a cada vez que um artigo é recusado, precisa passar por um novo processo de revisão, num esforço redundante e desnecessário.

O novo modelo ataca também outro flanco muito criticado no sistema convencional de revisão por pares: o fato de o trabalho dos revisores não ser remunerado. O Peerage of Science não oferece pagamento aos avaliadores, mas atribui valor ao seu trabalho num sistema de créditos válidos no sistema – eles também são necessários para o envio de artigos e outras ações.

funcionamento da plataforma é simples: quando um grupo envia um artigo, especialistas naquela área que sejam usuários do sistema são notificados e podem se voluntariar para rever o artigo. Uma vez feita a avaliação, caso seja recomendada a publicação, os periódicos cadastrados no serviço têm a opção de fazer aos autores uma oferta de publicação, que eles podem ou não aceitar.

O sistema é engenhoso, mas seu bom funcionamento depende de massa crítica – se não houver um número razoável de revisores e periódicos participando, a avaliação pode continuar tão lenta quanto no sistema convencional. No fim de janeiro, o Peerage of Science já contava com mais de 500 colaboradores cadastrados, vindos de trinta países. Ainda não há pesquisadores brasileiros – o Chile é o único país latino-americano representado. Há dois jeitos de participar do Peerage of Science: recebendo um convite de um membro cadastrado ou submetendo um artigo para revisão.

Um único periódico está cadastrado por enquanto – a revista Ecography. Mas a expectativa dos criadores do serviço é que a lista aumente com o tempo, assim como o espectro temático coberto pela plataforma, que hoje se restringe à ecologia.

Apesar do início modesto, a novidade foi recebida com otimismo. Duas publicações respeitadas – Nature The Scientist – não hesitaram em usar a palavra “revolução” (ainda que com interrogação) no título dos textos que publicaram na internet apresentando a nova plataforma.

O que o Peerage of Science propõe não é uma ruptura radical com o modelo atual. A nova plataforma não abole o anonimato na avaliação e nem instaura um modelo de revisão pós-publicação, para citar duas alternativas mais extremas às vezes citadas como solução pelos críticos da revisão por pares. Talvez por isso mesmo o site finlandês tenha a chance de conquistar a adesão dos cientistas e começar a mudar a forma como se controla hoje a qualidade da ciência.

* * *

Duas boas recomendações de leitura para quem se interessa pelo assunto. Na semana passada, o biólogo Stephen Curry, do Imperial College, publicou um post que repercutiu bastante na web, explicando por que recusou o convite da Elsevier, maior editora de ciência do mundo, para fazer a revisão de um artigo. Seu relato ajuda a entender os dilemas atuais enfrentados no mundo da publicação científica.

Da mesma forma, uma reportagem recente de Thomas Lin no New York Times discute os questionamentos feitos à revisão por pares e aborda outros temas que já foram objeto de posts neste blog, como o movimento pela ciência aberta, as redes sociais de ciência e outras tendências do movimento que ele chama de ciência 2.0

Leia também:

Revisão transparente
Presságio do futuro
Revisão revista

Revista Piauí