Tecnologia chega ao campo

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Fazer com que o conhecimento gerado nos centros de pesquisa chegue até o campo é um dos grandes desafios enfrentados no setor agropecuário no Brasil. Em Mato Grosso, um trabalho iniciado há cerca de quatro anos pela Embrapa apresenta os primeiros resultados positivos.

A ideia é investir na capacitação dos agentes de assistência técnica e extensão rural, que serão os multiplicadores de conteúdo, fazendo com que a informação chegue até o produtor. A novidade é que esta capacitação faz parte de um processo contínuo. Assim, o técnico participa de dois ou três módulos anuais de treinamento em uma formação sem prazo para acabar. O conteúdo abordado é retroalimentado pelos próprios participantes por meio das dificuldades, dúvidas e demandas encontradas no dia-a-dia no campo.

Com isso, o técnico, seja ele de cooperativas, prefeituras, órgão de extensão ou autônomo, assume o protagonismo na região onde atua. Para que isso seja possível, ele tem de montar uma Unidade de Referência Tecnológica (URT) em alguma propriedade que assiste e tem de usá-la como vitrine para disseminar o conhecimento para colegas de profissão e para os produtores da região.

Para possibilitar o desenvolvimento das cadeias produtivas mais representativas para Mato Grosso, a Embrapa Agrossilvipastoril desenvolve dez processos de capacitação continuada. São contempladas atualmente as cadeias do leite, da pecuária de corte, da olericultura, fruticultura, mandiocultura, piscicultura, apicultura, biodiesel, sistemas agroflorestais e integração lavoura-pecuária-floresta. Atualmente cerca de 470 técnicos participam ativamente de alguma das dez capacitações continuadas.

“Este técnico vai participar de treinamentos sobre temas de interesse e então ele será uma pessoa com alto conhecimento sobre esta atividade. Com isso ele poderá, de uma forma muito efetiva, voltar a sua região e melhor assistir aos produtores”, explica o chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agrossilvipastoril, Lineu Domit.

É o que já acontece com o técnico em agropecuária da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) em Campo Verde, Sérgio Mazete. Como a região em que atua tem grande vocação para a produção de hortaliças, devido à proximidade do mercado consumidor de Cuiabá, ele participa da capacitação continuada da olericultura. Há três anos participa de todos os módulos do treinamento e já percebe melhorias em seu trabalho.

“Com esta capacitação você busca novas tecnologias e tem mais conhecimento para transmitir ao produtor. Agora é possível passar mais informações sobre manejo de pragas, rotação de culturas, agroecologia e tudo isso contribui para reduzir o custo de produção e o uso de agrotóxicos”, conta Sérgio, que ainda destaca o intercâmbio de experiências com colegas e instrutores como um dos pontos altos da capacitação.

Resultados

No município de Cáceres está um bom exemplo de resultado prático das capacitações continuadas. O biólogo da Empaer Douglas Castrillon participa desde o início do treinamento da cadeia produtiva do leite. Já coordena duas Unidades de Referência Tecnológica e está implantando uma terceira.

Os locais são usados por ele como ferramentas metodológicas para multiplicar o conhecimento que adquire na capacitação para produtores e técnicos. Promove dias de campo, oficinas técnicas, demonstrações de método entre outras atividades. Além disso, iniciou um processo de treinamento de colegas da assistência técnica da região.

“Eu não sei o que aconteceu. Mas a motivação para trabalhar aumentou com a participação na capacitação. Talvez pelo aumento de conhecimento e por saber que temos o respaldo de um time composto pela equipe da Embrapa. Mas o que realmente mudou muito foi a forma de agir e de pensar. A eficiência está muito maior”, analisa Douglas Castrillon.

E esta motivação do técnico se reflete também nos produtores beneficiados e nos resultados obtidos no campo. Castrillon exemplifica esta empolgação com o caso da família do produtor Gabriel Antônio Felipe. Em um ano e meio de trabalho, adotando apenas tecnologias de baixo custo, como a rotação de pastagem e a seleção do rebanho pelo controle leiteiro, foi possível passar a média diária de produção da propriedade de 35 para 110 kg de leite. Isso ainda com a redução do número de cabeças do rebanho já existente.

“Gosto muito de mostrar este exemplo, pois é um produtor que com baixo investimento, vem obtendo um resultado muito bom. Assim não tem desculpa de que com dinheiro tudo funciona”, afirma Douglas.

Metodologia de trabalho

Cada processo de capacitação conta com um coordenador e um grupo gestor formado pela Embrapa, Empaer, Secretaria de Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar de Mato Grosso e parceiros. Este grupo é responsável por orientar a condução e definição da programação dos módulos.

No início da capacitação é feito um nivelamento com todos os participantes. Em seguida, novos temas são abordados, sendo que muitos deles são sugeridos pelos próprios alunos, a partir de situações vivenciadas por eles nas URTs ou mesmo no atendimento direto aos produtores.

Entre os instrutores estão pesquisadores de diferentes Unidades da Embrapa e de diversas instituições de ensino, pesquisa e extensão rural de todo o país.

“Onde tiver um especialista em determinado assunto nós vamos atrás para contribuir com a capacitação”, explica Lineu Domit.

Extensão rural em Mato Grosso

Apesar de ser conhecido pelas grandes fazendas, com lavouras de milhares de hectares e pastagens extensas, o estado de Mato Grosso tem um grande contingente de pequenos agricultores que dependem da assistência técnica oficial para produzir.

De acordo com dados da Empaer (2009), dos 188.560 estabelecimentos agrícolas do estado, 140.201 pertencem a pequenos produtores, o que representa quase 75% do total. Destes, 90.046 são assentados da Reforma Agrária, que em sua maioria não são agricultores tradicionais e precisam de apoio técnico para desenvolver as atividades agropecuárias.

Fonte: Embrapa