Tornando visível as dez principais atividades que integram o exercício da profissão acadêmica de pesquisador/professor

sábado, 21 de março de 2015

Em um momento da vida nacional de aceleração da degradação ambiental, desaceleração econômica intensa, retração do investimento público e privado, rápida elevação dos juros para além de patamares já proibitivos, escassez de novos empregos, mudanças nos direitos trabalhistas e previdenciários e corte de verbas das instituições de ensino e pesquisa superior (IES), faz-se necessário apresentar para a sociedade uma síntese das principais atividades de uma categoria de trabalhador insubstituível no processo de construção do desenvolvimento sustentável do país, o pesquisador/professor.

Independente do tipo de administração (pública ou privada), de missão institucional (universidades federais, estaduais e municipais, centros universitários, institutos, faculdades integradas, faculdades e escolas), de formação educacional e de titulação dos pesquisadores/professores, do regime e das condições materiais de trabalho em suas instituições, bem como dos traços estruturais dos projetos desenvolvidos (em redes colaborativas, com ou sem plataformas multiusuários e/ou multi-institucionais…), é possível sintetizar, sem ser reducionista, o trabalho desenvolvido por homens e mulheres de ciências e de tecnociências, agrupando em dez suas principais atividades, a saber:

Primeira: capacitar recursos humanos (dar aulas na graduação e na pós-graduação, orientar teses, dissertações, monografias e iniciar jovens ao mundo das ciências e das tecnociências), porque o governo, a indústria, o comércio e as IES têm demandado cada vez mais força de trabalho qualificada e especialistas com grau universitário para poder alavancar a economia nacional.

Segunda: construir, manter e atualizar a infraestrutura do local de trabalho, que pode ser um laboratório e/ou uma sala de professor(a)/pesquisador(a) para o desenvolvimento de projetos de pesquisa e formação de recursos humanos, porque as tecnologias da informação e comunicação se desenvolvem com tal rapidez que equipamentos, softwares e redes precisam ser atualizados em intervalos de tempo cada vez mais curto.

Terceira: organizar e gerir bases de dados para as pesquisas e das pesquisas, diante do número de pessoas nelas envolvidas e o número de publicações que produzem em velocidade crescente.

Quarta: acompanhar, pari passo, o que fazem os colegas e/ou laboratórios e/ou instituições concorrentes no desenvolvimento de temas de interesse restrito de partes selecionadas de uma disciplina, porque, na prática das ciências e das tecnociências, há pouco prêmio para a simples duplicação de conhecimentos produzidos e segundo o que outros produziram: as ciências e a tecnociências, para crescerem, avançarem na formulação de questões novas de pesquisa e ampliarem os conhecimentos até então produzidos, fazem-no olhando para a empiria, apoiadas nos ombros dos(as) colegas vivos(as) e mortos(as), nunca ficando sentadas e descansando sobre esses ombros, por mais reconfortantes que sejam.

Quinta: atender às demandas dos setores da administração e da gestão da pesquisa e do ensino e enfrentar a morosidade de processos de compra e/ou liberação alfandegária de insumos básicos das atividades de P&D, o que gera perda de insumos e atrasos nos cronogramas dos projetos e colaborações nacionais e internacionais, obrigando o(a) pesquisador(a) a se envolver diretamente em tarefas burocráticas de compras públicas alheias a sua formação educacional com vistas a encontrar soluções que viabilizem o processo de produção de conhecimentos científicos robustos e sua permanência no competitivo mundo internacional das ciências e das tecnociências.

Sexta: organizar e/ou participar de eventos técnico científicos, divulgando o conhecimento produzido e atualizando suas informações sobre o que outros(as) pesquisadores(as) e grupos de pesquisa estão fazendo sobre o(s) seu(s) tema(s) de pesquisa(s).

Sétima: produzir e publicar artigos científicos, capítulos de livros, trabalhos em anais, relatórios de pesquisa, manuais técnicos, organizar livros e números temáticos em revistas, porque um(a) pesquisador(a) improdutivo(a) não é bem-aceito(a) pelos pares e pelas agências de fomento.

Oitava: fazer divulgação científica, por meio da redação de textos escritos em uma linguagem acessível ao grande público, através de publicações de cunho popular, do tipo que é vendido em bancas de jornais a fim de tornar sua pesquisa conhecida, fora do âmbito acadêmico, contribuindo para o cumprimento de uma das grandes promessas da democracia contemporânea: a educação para a cidadania, apoiada em políticas públicas saudáveis no âmbito local, capazes de promover o bem-estar dos cidadãos e lhes dar o instrumental educacional para transformá-los em agentes ativos do processo político e da gestão ambiental, em prol de uma sociedade sustentável.

Nona: participar de processos de avaliação ad hoc de projetos de pedido de financiamento a agências de fomento e formação pós-graduada, obriga- tório para quem tem bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq, e de artigos científicos de revistas e livros de editoras em que fazem parte do comitê editorial ou são convidados para tal.

Décima: participar de reuniões colegiadas de instâncias de gestão e/ou administração da pesquisa científica para não ficar à margem do processo decisório da política científica local e arcar com as consequências negativas de decisões tomadas por terceiros que incidem sobre o andamento e a realização de suas pesquisas.

Quase todas essas dez atividades precisam ser desenvolvidas com base na integridade ética da pesquisa e do ensino segundo as diretrizes estabelecidas pelas IES e/ou pelas agências de fomento nacionais e internacionais, com a instituição local de comitês de ética na pesquisa observando a adoção ou não dessa prática na metodologia dos projetos de pesquisa.

Através das atividades desses profissionais, fauna, flora, clima, solo, subsolo, composição físico-química das águas, população humana e não humana, economia etc., tornaram-se mais visíveis com os pesquisadores fixando o foco de suas narrativas na leitura de resultados alfanuméricos alcançados. É o nosso olhar instrumentalizado – para tornar translúcidos os elementos e suas inter-relações que configuram a dinâmica dos modos de existência de todos os entes que percebemos como sendo a natureza – que tem aguçado a nossa consciência da situação em que se encontra a vida na sociedade brasileira e na Terra. Mulheres e homens de ciências e de tecnociências que veem narrando as transformações da sociedade brasileira e da Terra, com base em uma cultura epistêmica transnacionalizada, agem de forma pró-ativa, e em número crescente, ao participarem do debate público que se dá em um conjunto descentrado, plural e complexo de conversações sobrepostas, ocorrendo em múltiplos e divergentes lugares. As ciências e as tecnociências têm contribuído para a realização da importante missão da democracia diante das formas contemporâneas de degradação ambiental: desenhar instituições que capacitem os cidadãos não apenas a se engajarem ativamente, de forma individual e/ou associativa, em questões que afetam suas vidas mas, também, a fazerem julgamentos verossímeis sobre quando e como se manterem combativos ou passivos.

Referência bibliográfica
MACHADO, C.J.S. Desenvolvimento sustentável para o Antropoceno: um olhar panorâmico. Rio de Janeiro: E-papers, 2014.