USP implementa iniciativas para disseminar boas práticas de pesquisa

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Maria Fernanda Ziegler  |   Agência FAPESP – A Universidade de São Paulo (USP), por meio da Pró-Reitoria de Pesquisa, está implementando iniciativas para a disseminação de boas práticas de pesquisa e a prevenção de incidentes relacionados à má conduta científica. A medida envolve a criação de uma plataforma com cursos on-line e a curadoria de documentos e guias.

Para isso foi criado o Comitê de Boas Práticas Científicas da USP, que tem como intuito promover a cultura da integridade ética da pesquisa por meio de ações regulares e acessíveis a todos os alunos, docentes e pesquisadores.

O tema é complexo e já vinha sendo trabalhado na universidade em várias instâncias. No começo do ano, a Pró-Reitoria de Pós-Graduação disponibilizou para a comunidade da USP um software para detecção de plágios em textos. Agora, a universidade institucionalizou o processo a partir de iniciativas da FAPESP como o lançamento do Código de Boas Práticas Científicas da Fundação.

A ideia é que a plataforma de acesso aberto da USP esteja pronta para ser lançada em dezembro. De acordo com a Pró-Reitoria, embora a USP já tenha regras claras com sanções estabelecidas para problemas de má conduta científica – como fraudes, plágio, fabricação e falsificação de dados –, contempladas pelo Comitê de Ética, havia ainda uma lacuna referente à parte de educação e prevenção, essenciais para a mudança cultural em curso.

“Existe má-fé, existe fraude, mas muito desse problema está relacionado ao desconhecimento sobre boas práticas na pesquisa. Uma pesquisa divulgada recentemente na Science mostrou que, entre os estudos sobre novos medicamentos contra o câncer publicados em revistas de alto impacto, apenas em 10% dos casos houve reprodutibilidade dos estudos em outro laboratório. Isso mostra que existe um problema claro na maneira como fazemos experimentos em todo o mundo”, disse José Eduardo Krieger, pró-reitor de pesquisa da USP.

Segundo Krieger, a criação desses canais de capacitação sobre boas práticas contribuirá para aumentar o padrão de como se faz pesquisa. “Vamos aproveitar esses diversos canais que estão diagnosticando problemas no sistema para mudar o sistema. São várias as ações que a Pró-Reitoria está fazendo. É preciso dar as ferramentas para que isso seja feito. Por isso, começamos com a curadoria de materiais sobre boas práticas, cursos on-line e o incentivo para a geração de debate sobre o tema”, disse.

Na página da Pró-Reitoria de Pesquisa já foram anexados vários documentos e vídeos que servem como material de apoio.

“Esse é um terreno que envolve mudança de cultura. Como podemos fazer isso na prática? Um exemplo interessante é a seção Boas Práticas da Revista Pesquisa FAPESP, que reúne mais de 100 matérias sobre o tema. Com esse material, é possível se reunir com os alunos e discutir o assunto”, disse Hamilton Varela, professor do Instituto de Química, de São Carlos, e assessor do professor Krieger na Pró-Reitoria de Pesquisa da USP.

Krieger ressalta que a ideia é não só desenvolver os materiais de capacitação, como também saber onde eles existem dentro e fora da USP para assim poder disponibilizá-los abertamente.

Além da introdução de uma nova plataforma com guias de conduta e segurança em laboratórios e boas práticas de pesquisa nas diversas áreas do conhecimento, a iniciativa visa ainda estimular a programação de palestras, mesas-redondas e debates em simpósios e congressos realizados na USP.

“Temos a portaria e agora essas ações vão passar a permear toda a universidade. Por decreto a gente não deixa de ter plágio, não deixa de ter nome de autores excluídos ou incluídos em publicação. Porém, podemos trabalhar os exemplos, discutir com os alunos e assim obter resultados”, disse Varela.

Ainda nesse contexto, a USP vai introduzir a partir do próximo ano o acesso gratuito para pesquisadores e alunos de um caderno de laboratório on-line, o SciNote.

“Estamos testando em fase beta o melhor programa do mercado. Vai ficar mais prático, organizado e padronizado. Não vai existir mais aquela história de perder o caderno ou não completar os registros pois ele é de acesso aberto e está na nuvem da USP para ser testado”, disse Varela.

Centros de boas práticas

A criação do Comitê de Boas Práticas Científicas da USP partiu de um pedido da FAPESP de intensificar a educação de boas práticas como forma de prevenção. “A ideia é que a iniciativa de criar uma plataforma aberta na USP estimule ações do mesmo tipo em outras universidades”, disse Krieger.

O Código de Boas Práticas Científicas da FAPESP tem o objetivo de reforçar na comunidade científica paulista uma cultura sólida e bem arraigada de integridade ética da pesquisa mediante um conjunto de estratégias assentado sobre três pilares interdependentes: educação; prevenção; investigação e sanção justas e rigorosas, quando necessário.

A FAPESP estimula a criação de centros como o Escritório de Boas Práticas Científicas do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, aberto em 2016 e voltado ao treinamento, suporte, aconselhamento e divulgação sobre boas práticas científicas aos envolvidos no processo de produção de ciência no ICB, como pesquisadores, alunos de graduação, iniciação científica, pós-graduação e técnicos de laboratórios.